Já na curva acentuadamente descendente, venho só partilhar convosco uma das experiências que mais desejava concretizar nesta viagem - ir ao Orfanato da Manhiça conhecer a Otília Marrime, que vos passo a apresentar: é uma menina com um olhar vivo e terno, onde a curiosidade e a vontade de "sair" do seu pequeno mundo se manifestam. Nasceu em Tete, tem 21 anos, está no Orfanato há cerca de 9 anos. Na Escola oficial, frequenta a 12.ª classe/área de letras. Para a pergunta: O que queres ser? Obtive, sem hesitações, a seguinte resposta: "quero ser embaixadora"- Parece um sonho tão distante naquele mundo onde o essencial se resume a uma cama num quarto partilhado por mais de uma dúzia de meninas, à higiene, às refeições básicas (hoje o almoço era arroz com ervilhas) e a um espaço largo onde o limite é o céu, o belo céu estrelado, que aqui nos permite falar de perto com as estrelas, ...
Pois bem, esta ida à Manhiça veio reforçar a certeza do quanto é importante estar disponível para dar o nosso apoio. Apoio que também vos venho pedir em nome das 75 meninas que aqui vivem o seu dia-a-dia num local onde há sempre alguém que as espera, que se preocupa se algo não corre tão em (uns dias de malária, uns livros
que ainda não foram recebidos,...) e que se alegra com os seus sucessos e com elas partilha sorrisos e afectos. Pode parecer pouco, se medirmos tudo pelas facilidades da sociedade em que vivemos, pela abundância geradora de desperdícios, que nos leva, por vezes, a tomar como certo e como direito, inquestionável, para todos o que afinal só uma minoria tem acesso. Pode parecer pouco, dizia, mas já é tanto sobretudo quando sabemos da grande insegurança alimentar, habitacional, de saúde, de educação, de.... de... em que tantas crianças e jovens, vivem espalhados por este Moçambique e pelo mundo.
(…) As 75 meninas dizem KANIMAMBO às nossas ofertas e eu também pela vossa amizade e pelo dia de hoje.