Tecnologia social

O futuro depende das tecnologias sociais colaborativas (por exemplo, a ‘web' e os telemóveis) para responder aos desafios sociais.
João Wengorovius Meneses

"A dimensão social do homem é determinada pelo uso que dá à tecnologia." Heidegger

Decorreu há uns dias, em San Sebastian, uma ‘summer school' sobre inovação social. Ao longo de três dias, pessoas provenientes de todo o mundo e de todos os tipos de sectores e organizações debateram novas e melhores respostas para os problemas sociais actuais: da exclusão à pobreza, da educação à saúde, das alterações climáticas à vida urbana, da depressão ao ‘bullying'. Numa expressão de Charles Leadbeater (que esteve presente), a ‘summer school' reuniu um grupo de ‘pragmutopians' empenhados em mudar o mundo à sua volta. Para eles, as palavras-chave são: criatividade, redes, tecnologia, empreendedorismo e sustentabilidade.

Uma das principais conclusões desses três dias é a da importância das tecnologias sociais colaborativas (por exemplo, a ‘web' e os telemóveis) na resposta aos desafios sociais. Elas são absolutamente necessárias para uma sociedade mais inclusiva e sustentável, pois permitem novas formas de consumo, de produção, de mobilidade, de associação e de comunicação. Permitem novos modos de vida, de colaboração, de cidadania local e global, de inovação. Por isso estão a ser tão intensamente utilizadas por comunidades, empresas (como a Cisco e a Philips), organizações sociais e indivíduos.

Por coincidência, durante a ‘summer school' foram anunciados os finalistas do ‘The UK Catalyst Awards - Community Awards for Social Technology'. Trata-se de um prémio, apoiado pelo primeiro-ministro Gordon Brown, que pretende distinguir iniciativas de intervenção social apoiadas na tecnologia.

Mas vejamos exemplos. Ao nível dos jovens, o ‘Reach Out!' (www.reachout.com.au) é um portal para a saúde mental que, em 2007, registou 2,6 milhões de visitas, 84% das quais de jovens com menos de 25 anos (e algum tipo de mal-estar psicológico!). Já o ‘FreqOUT' (www.vitalregeneration.org) explora o potencial artístico e educacional das tecnologias para a inclusão de jovens em risco, e através do www.vinspired.com milhares já aderiram a iniciativas de voluntariado criativas e descontraídas.

Ao nível do ambiente, o www.dothegreenthing.com é uma comunidade ‘online' de mais de 125.000 pessoas que trocam soluções fáceis e criativas para um modo de vida mais sustentável. Já o www.liftshare.org promove a partilha de meios de transporte, contribuindo não só para a diminuição das emissões de carbono como para a consolidação das comunidades locais (conta já com mais de 250.000 aderentes).

Mas há milhares de outros exemplos. No domínio do combate à exclusão social, o www.mediafordevelopment.org.uk e o www.gypsy-traveller.org. No domínio do combate à pobreza o www.serhumano.org e os exemplos dados por Bill Gates, no seu artigo sobre capitalismo criativo, no último número da revista "Time". No domínio do emprego, o www.sliversoftime.info, um ‘eBay' para tempo excedentário. Na saúde, o ‘instedd.org' é um verdadeiro laboratório do potencial da tecnologia e da medicina 2.0. No domínio da arquitectura e do ‘design', o www.openarchitecturenetwork.org cita Le Corbusier para lembrar que a arquitectura (colaborativa) pode evitar revoluções desnecessárias. Já no domínio da educação, o www.schoolofeverything.com é disruptivo e o www.wearewhatwedo.org propõe milhares de pequenas acções quotidianas para um mundo melhor. Por último, e com uma actuação mais abrangente, são inspiradores o Hope Institute (www.makehope.org), e o ‘think tank' Knowledgeland Foundation (www.kennisland.nl) - cujo projecto ‘Digital Pionners' tem excelentes exemplos práticos e criativos do uso da tecnologia para fins públicos e sociais.

Em Portugal, é lamentável que a política social seja tão pré-moderna. Porque razão a tecnologia, a inovação e a intervenção social nunca aparecem juntas? Em Portugal, a acção social é bafienta. Mas há esperança. Nunca me esqueço que a humanidade usou as rodas e as malas durante mais de três mil anos e só há cerca de trinta anos alguém se lembrou de juntar as duas. 

 

in Diário Economico - 06 Agosto 2008

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O futuro depende das tecnologias sociais colaborativas (por exemplo, a ‘web’ e os telemóveis) para responder aos desafios sociais. (in Diario Economico)

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