Uma sociedade à deriva?
Não é admissível que a liberdade e a participação democráticas se confinem somente aos dias de eleições.
João Wengorovius Meneses
Este ano partimos para férias sob a ameaça de uma crise económica que se começa a temer estrutural e com consequências irreversíveis para o nosso estilo de vida. De facto, duas das principais conquistas dos países ricos nas últimas décadas - mais riqueza e bem-estar - parecem em risco. Afinal, um modelo de desenvolvimento dependente do petróleo e da transformação dos seres humanos em máquinas de produzir e consumir não é sustentável. Veja-se o vídeo "The Story of Stuff" em www.storyofstuff.com (ou no Youtube) e perceba-se porquê. No fundo, o que começa a ruir é o triunfo do imaginário do capitalismo liberal, assente na centralidade da economia e na expansão permanente da produção e do consumo.
Mas não é só o sistema económico que dá sinais de esgotamento. Também as actuais democracias, que mais se assemelham a oligarquias liberais, parecem ter afastado irremediavelmente os cidadãos da política, não havendo hoje qualquer disponibilidade para a utopia ou para a acção colectiva - a não ser a de salvaguarda do statu quo. Afinal, a promessa democrática de participação das pessoas nas tomadas de decisão que afectam as suas vidas, seja ao nível do Estado, seja ao nível das suas comunidades locais, não chegou a realizar-se. Não é admissível que a liberdade e a participação democráticas se confinem somente aos dias de eleições.
Hoje, com os sistemas económico e democrático em crise, parece inequívoca a necessidade de se encontrar um novo modelo de desenvolvimento sustentável e novas formas de revitalização da democracia. A primeira transformação necessária seria a de substituir a paixão pelos objectos de consumo pela paixão pelos assuntos comuns.
Que papel poderão ter os políticos nessa mudança? Desde logo, o papel de inspirar um novo sentido colectivo, assente em mais e melhor participação. Como escreveu recentemente Carlos Zorrinho, "a campanha de Barack Obama mudou uma página na política moderna, introduzindo um novo modelo de participação e de envolvimento cívico, baseado nas redes sociais e na sua mobilização". Nessa nova política "a mobilização dos cidadãos passa cada vez mais pela sua percepção de envolvimento e de partilha de projectos de transformação (ou de conservação)." Obama surpreendeu tudo e todos porque percebeu que "a inovação social e política implica cada vez mais colocar na mão dos cidadãos as ferramentas da mudança" e que "a nova política, tal como a nova economia, vive da cultura empreendedora." Julgo que terá sido esta a intuição de Rui Marques ao fundar o MEP (Movimento Esperança Portugal). Infelizmente, as mudanças recentes no PSD não lhe serão favoráveis.
Mas à crise nos actuais sistemas económico e democrático falta ainda acrescentar o empobrecimento de outra das importantes conquistas do século XX: a do tempo livre. O tempo livre converteu-se numa indústria do ‘zapping' e da distracção instantânea, quando deveria ser o "campo de formulação do sonho e do desejo", como se lê no documento "Do tempo livre à libertação do tempo", editado recentemente pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Em vez de cumprir o que promete, ou seja, liberdade, o tempo livre acaba por contribuir para a infantilização da pessoa, para uma cultura da distracção e do divertimento. No fundo, trata-se de uma cultura do vazio e do esquecimento - quando a vida, sabemos, nunca terá outro sentido a não ser o que formos capazes de lhe dar.
O tempo livre deveria ser um espaço nómada e criativo, de descoberta de si próprio e do outro. Ele é determinante pois a mudança começa no interior de nós próprios. É como se a oração de Baudelaire - "Senhor, ensina-me a olhar o meu corpo e a minha alma sem vergonha" - fosse mais importante do que todas as ideias e teorias sobre o mundo, do que todos os ‘slogans' revolucionários. Aliás, se a atingíssemos até nos poderíamos esquecer de mudar o mundo, "deixando-o a si mesmo, para que a mudança se faça naturalmente", como escreveu Marguerite Duras em "Os cavalos de Tarquínia".
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João Wengorovius Meneses, Gestor da ONG TESE